Colhidas em minutos na sala de parto e mergulhadas em nitrogênio a 196°C negativos, as células do cordão umbilical são um trunfo real contra leucemias e doenças genéticas. Mas os números contam outra história: das quase 165 mil amostras guardadas em bancos privados no país em duas décadas, 26 foram usadas —e a rede pública, a mais recomendada pelos médicos, está inerte.
Na sala de parto, a coleta dura cerca de quinze minutos e quase ninguém percebe. Nascida a criança, o obstetra pinça o cordão e o separa do bebê, que segue para os primeiros cuidados. Só então entra a equipe de terapia celular —não perto do recém-nascido, mas da placenta, já desligada, levada para uma mesa ao lado.
De uma veia do cordão, o sangue é aspirado para uma bolsa, como numa coleta comum: 80 mililitros de um material que costuma ir direto para o lixo hospitalar. Em seguida, uma tesoura corta cerca de dez centímetros do próprio cordão, guardados à parte. A mãe, muitas vezes, mal registra o movimento.
Coleta de sangue de cordão umbilical é rápida, indolor e custa em torno de R$ 4 mil — Foto: Cortesia/Criogênesis
O que vem depois parece ficção científica. A bolsa viaja num contêiner de temperatura controlada —nunca passa pela esteira de raio-X do aeroporto porque a radiação danifica as células—, com um sensor lendo cada variação, e precisa chegar ao laboratório em até 48 horas.
Lá, o sangue é lavado, contado célula a célula e recebe um anticongelante que impede a formação de cristais de gelo capazes de romper a membrana por dentro. Uma máquina então resfria o material um grau por minuto, até 120°C negativos, ponto a partir do qual ele pode enfim descer aos tanques de nitrogênio, a 196°C negativos.
Ali, sob pressão positiva e dupla barreira contra bactérias, cada torre guarda cerca de quatro mil amostras. São milhares de vidas em pausa, à espera de um futuro que talvez nunca chegue.
Foi esse caminho que a atriz Camila Queiroz percorreu com a filha, Clara, nascida em dezembro, e relatou aos seguidores no início deste mês, descrevendo o procedimento como simples, seguro e indolor. Tudo verdade.
O g1 apurou que guardar esse material custa, em média, cerca de R$ 4 mil pela coleta e algo em torno de R$ 1 mil por ano de manutenção —e que existem dois caminhos possíveis, quase opostos.
- Nos bancos públicos, a mãe doa, e as células deixam de pertencer a ela: vão para quem precisar. Não há custo.
- Nos privados, pelo valor descrito acima, ficam reservadas à própria família, mediante pagamento.
Para acompanhar a chegada e o congelamento de uma dessas amostras, o g1 esteve num banco privado em São Paulo, ao lado de Nelson Tatsui, hematologista da equipe de hemoterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e diretor clínico da Criogênesis.
Profissionais armazenando o material em tanques de nitrogênio a -196 graus — Foto: Cortesia/Criogênesis
O que se guarda e por quê
As células-tronco do sangue de cordão são as fábricas originais do sangue: multiplicam-se e se transformam em glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas. O que as torna valiosas, explica Fernanda Guttilla, ginecologista e especialista em reprodução humana do Hospital Sírio-Libanês, é a juventude.
Colhidas no exato momento em que o feto ainda as produz em ritmo intenso, elas se multiplicam mais e melhor do que as células adultas da medula óssea —e trazem vantagem decisiva: por serem imunologicamente imaturas, toleram alguma incompatibilidade entre doador e receptor sem desencadear a rejeição grave que inviabilizaria um transplante convencional.
O sangue não é a única coisa recolhida. Do tecido do próprio cordão vêm as células mesenquimais, de outra linhagem, associadas à regeneração de tecidos como osso, cartilagem e fígado, e ainda em estudo. É por isso que muitos pais hoje guardam os dois —o sangue, no primeiro ato da coleta; o tecido, no segundo.
Para que servem, de fato
No terreno do comprovado, o sangue de cordão tem um uso principal, e um só: servir de fonte de células para o transplante de medula óssea. As indicações reconhecidas giram em torno de algumas dezenas de doenças do sangue e do sistema de defesa —leucemias, linfomas, síndromes mielodisplásicas, aplasia de medula, anemias hereditárias como a falciforme e a talassemia, imunodeficiências e alguns erros metabólicos raros.
O que o transplante faz, porém, muda conforme a doença.
- Nos cânceres do sangue, o paciente passa antes por uma fase de preparo —o condicionamento— que elimina as células tumorais e abre espaço para o novo material; as células do cordão então repovoam a medula e reconstroem a produção de sangue do zero.
- Na aplasia de medula, não há tumor a destruir: o que falhou foi a própria fábrica, e as células saudáveis assumem o lugar de uma medula que deixou de produzir.
- Nas anemias hereditárias, como a falciforme e a talassemia, a lógica é outra ainda —as células do doador passam a fabricar hemácias com hemoglobina normal, corrigindo a origem do problema.
- Em imunodeficiências, dão origem a um sistema de defesa funcional; em certas doenças metabólicas, produzem a enzima que faltava.
O que se repete em todos os casos é o desfecho. Infundidas na veia, como numa transfusão, as células encontram sozinhas o caminho até o interior dos ossos, instalam-se e começam a trabalhar. Os primeiros sinais aparecem entre dez e quinze dias; a recuperação completa da imunidade leva meses.
Sangue de cordão coletado na hora do parto — Foto: Cortesia/Criogênesis